É a Hora do Chá!

Blindness

 Ela reprimiu um soluço. Não era hora de chorar, era hora de agir. Voltou seu olhar para o corpo estendido no chão, à sua frente. Lágrimas teimosas saíram do seu olho e rolaram pelo seu rosto. Mordeu com força o lábio inferior, ferindo-o e então, resolveu agir.

Pegou a luva de látex jogada dentro da bolsa, calçou-as e moveu o corpo para a esquerda. Era pesado demais apenas para ela. Precisaria da ajuda de quem estivesse lá fora. Respirou fundo, tentando tomar coragem novamente. Foi então que visualizou o rosto dele e dessa vez, o soluço veio forte. Não tinha como evitar. Eram muitas memórias para acabar desse jeito.

Ele a encarava de um jeito apaixonado, com olhar intenso. Intenso demais. Ficou envergonhada e desviou o contato. Não conseguia sustentar um olhar daquela intensidade. Parecia que desvendava todos os segredos que guardava dentro de si.

Na mesma hora ele ficou preocupado e aproximou-se dela. Tocou-lhe a face e depositou um beijo de leve”.

A porta abriu-se com um estrondo e um homem alto, forte e moreno adentrou. Seu rosto possuía uma cicatriz próxima ao queixo e estava irritado. Ela engoliu em seco ao ver o olhar e não conseguiu não comparar com a diferença do olhar do outro, tão vívido em sua memória.

- E?

- Quase feito.

- Não demore. Ou irá sobrar para você.

Só pôde assentir. Voltou-se ao corpo em sua frente e suspirou profundamente.

Ela o encarou desesperadamente, querendo que ele a compreendesse. Ele, por sua vez, queria acabar com o desespero dela. Agarrou-a forte e deu-lhe um beijo profundo. Suas mãos passavam rápidas pela lateral do corpo dela, agarrando cada curva. O beijo intenso se desfez quando ele começou a beijar o pescoço dela, indo em direção ao colo dos seios. Ela apertou-lhe a bunda e gemeu baixo.

Ele a levantou e a apoiou em seus quadris, em seguida empurrando em direção à parede. Nenhum dos dois queria ser gentil. Ela o beijou novamente nos lábios, enquanto ele deslizava uma mão por entre as pernas. E ali arrancaram o desespero de cada um a noite inteira”.

Mais lágrimas desceram pelo rosto. Aproximou-se do rosto pálido em sua frente e deu um beijo na testa. Lágrimas caíram no rosto do morto. Muito provavelmente ela iria se arrepender disso depois, pois deixara evidência no corpo. Mas precisava daquilo, precisava daquele último momento. Era seu momento, sua culpa gritava em sua consciência. Afastou-se e se aproximou da porta por onde o outro homem tinha adentrado. Não olhou pra trás – somente abriu a porta e disse que precisaria de ajuda. Depois que o homem passou pela porta, ela ainda soltou um último lamento.

- Me desculpe.

O som do tiro ainda era muito vívido em sua mente.

O Som do Terror

“HiHiHaHAHAhihHAHaHIHAhihHA”

Uma risada estridente ecoou pela rua vazia. Um casal voltava de uma peça que foi apresentada no Teatro Municipal da cidade. Era um drama sobre uma mulher que abandonava os filhos. Não tinha atraído muita atenção da população: o teatro estava quase vazio. Logo, assim que a peça acabou, havia pouquíssimas pessoas na rua. A maioria já havia ido embora, mas o casal tinha ficado para cumprimentar os atores.

“HihihiHAHAHAHAHhihihiHAHAHAHAHHEhiihehHAhaHahAHaAHaHIhihI”

Ela sentiu um arrepio passar por sua espinha ao escutar novamente a risada. Agarrou o braço do seu companheiro e apoiou o rosto em seu ombro. Ele também estava tenso. Internamente, torcia para que a risada não viesse seguida de um barulho metálico.

PAM, PAM, PMMM, PAM.

Os dois pararam ao escutar o barulho de uma barra metálica batendo em outra. Marta encarou Pedro desesperada: este agarrou sua mão e segurou com firmeza, tentando lhe passar algum apoio. Mas qual tipo de apoio teriam em um momento como aquele? Marta engoliu em seco.

- Não se desespere. - sussurrou ele.

- Como você não quer que eu me desespere? - Marta retrucou aflita.

- Vai dar tudo certo. Vamos voltar para o teatro e ele não vai nos pegar.

No entanto, Marta podia sentir que a voz dele não emitia nenhuma confiança. Nem ele acreditava naquilo que dizia. Era uma mentira deslavada. “Eu vou morrer hoje” pensou. “E é Risada Metálica quem vai me matar”.

Risada Metálica – um nome ridículo, por sinal, - é como um serial killer foi batizado pela imprensa local. Dono de uma risada maníaca e estridente, o modus operandi era básico: matar suas vítimas batendo nelas com barras de metal. Normalmente, fazia duas vítimas sempre que atacava e sua preferência para agir era sempre a noite.

Risada recebeu este nome devido a uma testemunha que encontrava-se em um prédio e escutou uma risada estridente e maníaca, enquanto ele matava suas vítimas. Após a testemunha ter dado seu depoimento, ele mandou um vídeo em que encontrava-se várias risadas de diversos filmes misturadas e ao fundo, barulho de metal batendo um no outro e gritos de dor. Não havia nenhuma imagem: só um fundo preto com as risadas e os gritos.

O casal começou a fazer o caminho de volta. Novamente, barulho de metal contra metal foi escutado. Os dois aceleraram os passos mas foram impedidos por um homem alto, não muito forte e que aparentava ter uns quarenta anos. O homem usava um chapéu de bobo da corte. Em suas mãos, duas barras de metal.

- Boa noite, senhora e senhor! Sejam bem vindos ao meu espetáculo! Não sou um simples bobo da corte. Eu ganhei o apelido de Risada Metálica. - o “bobo” fez uma mesura e sorriu diabolicamente. Marta fez intenção de gritar, mas Risada impediu imediatamente. - Nah, nah. Nem abra a boca pra gritar, minha senhora. Não agora. O espetáculo nem começou ainda. Se você gritar, bom…eu darei meu jeito de procurar alguém da sua família e fazer um outro espetáculo. E este espetáculo seria muito mais especial. Acredite, eu sou muito bom em encontrar pessoas.

Marta engoliu em seco. A possibilidade daquele maníaco fazer mal a qualquer membro da sua família aterrorizava ainda mais do que sua morte escancarada.

- O show é simples, senhores! Quero que façam uma mesura. Depois, abaixem-se. Quanto antes fizerem, mais rápido acaba. E aí, enquanto o show estiver acontecendo, vocês, a plateia, poderão gritar o quanto quiserem. - contou Risada. Pedro e Marta começaram a chorar e implorar por suas vidas. - Não! Não é a hora de falarem. O show não está na parte de vocês ainda, está na minha parte. E o show acontecerá conforme eu quiser. Que soem os tambores! - gritou Risada e começou a bater uma barra na outra.

Risada fez outra mesura. Pedro e Marta repetiram o momento e enquanto realizavam, encararam-se. Tantas coisas não ditas sendo ditas por apenas um olhar. Uma lágrima rolou pela face de Marta. Pedro soletrou um “Eu te amo” e Marta devolveu com um “Eu também te amo”.

Risada colocou o casal o mais próximo um do outro e começou a rir de forma maníaca e estridente: HIHAHAHhihahHAahAHaHihihiHAHAHAhihahaHAhaHaHAAHHAHAHA.

As barras de metal bateram outra vez, até que atingiram a cabeça de Pedro primeiro. Em seguida, a de Marta. E assim foi até o “bobo da corte” completar seu serviço, fazendo com que a última coisa que o casal escutasse fosse apenas o terror.   

Uma receita

A receita é simples: meia dúzia de estresse, duas xícaras de tempo e duas xícaras de paciência. Acrescente uma xícara de confiança, seis colheres de sopa de diversão e uma colher de “conta comigo sempre”. Coloque no forno pelo tempo que você achar ideal. Sirva e saboreie a amizade.

p.s: para aquela que inspirou o post e que faz aniversário hoje. Nossa amizade foi assim. Feliz aniversário, Grazi.

Tic-tac

Tic-tac, tic-tac, tic-tac…

O relógio soava e o tempo não passava. Ainda faltavam oito minutos. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. Ele continuava a encarar o relógio, com os ponteiros aparentemente imóveis. Tic-tac, tic-tac, tic-tac. O relógio finalmente virou o ponteiro: agora faltavam sete minutos. A cada “passo”  do relógio, ele ficava mais ansioso, e o barulho só aumentava a ansiedade, sempre fazendo: Tic-tac, tic-tac, tic-tac.

Copas

Alice encarou a carta de baralho na sua mão: era uma Rainha de Copas. Parou pra pensar na outra Alice, e na rainha que esta enfrentou,aquela que gritava sobre cabeças cortadas. Era irônico uma carta com símbolo de coração representar uma mulher amarga e louca. Era irônico representar alguém sem coração. 

Largou a carta: não era bom pensar sobre este naipe. 

p.s: da série de textos curtos “Alice”.

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